sábado, 3 de abril de 2010

Nada

Somos felizes…, ouço-te dizer numa voz débil que reflectia a luz por cima das nossas cabeças. Só pode ter acontecido alguma coisa muito grave, ele não levou nada a não ser uns trocos e as chaves de casa, e já passou este tempo todo e nada, não percebo para que é que são todas estas perguntas…
Este tipo de acontecimentos costuma ser desencadeado por algo fora do comum, ouço o meu colega num tom impassível que ele julgava profissional e ensaiara em inúmeros episódios anteriores. Não notou nada de invulgar nos dias antes?
Suspiro imperceptivelmente, dou meia volta, encaro a parede, exasperado, em busca de inspiração, baixo a cabeça para os papéis que permanecem nas minhas mãos.
Nada, nada, nada… Problemas no trabalho, problemas familiares? Alguém que lhe quisesse fazer mal?
Nada.
Alguma diferença de comportamento, problemas com álcool, drogas, jogo, dívidas, saúde, alguma coisa fora do normal – nada, nada, nada…
Somos felizes…
Cai o silêncio durante uns momentos. Do ponto em que estou ao fundo da sala encaro-te pela primeira vez como se te quisesse devolver toda aquela informação a ricochetear pelas quatro paredes.
Então o que é que nos estás a esconder?, inclino a cabeça para a direita, enrolo o canto direito dos papéis que seguro, dou uns passos antes de me aperceber que já desviaste o olhar, outras vozes sobrepuseram-se.
Conte lá então do princípio como é que tudo aconteceu…, a entoação indulgente, paternalista.
Não há muito para contar na realidade. Era domingo, um domingo igual aos outros, a seguir ao jantar ele disse que ia lá abaixo ao café comprar pastilhas elásticas…
Os risos escarninhos interromperam-te, pastilhas elásticas? Ele estava a tentar deixar de fumar, pedes desculpa, ele vai-se embora e tu é que ficas a pedir desculpas por ele.
O que é que nos estás a esconder?
Sacudo os papéis em cima da mesa com ruído, fito-te envergando uma expressão neutra como se não te estivesse a ver. Lembro-me que ergueste o olhar, sequiosa, à espera que eu te pudesse salvar, na esperança de que fosse só uma questão de espera. Todo o teu corpo tinha sido formatado daquela maneira, para exibir aqueles movimentos. Estava na altura de dar início à desformatação, para que pudesses ver as coisas como elas são na realidade.

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