Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas (1951)
domingo, 22 de Novembro de 2009
Ultimamente tem-me dado para isto...
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
domingo, 11 de Outubro de 2009
Caso encerrado
[...]Os dedos dos pés nus encolhiam-se com medo da temperatura do chão, com medo de eventuais obstáculos maciços, com
tanto
medo de se denunciar na sua incapacidade.
- Estás a ir bem – tranquilizou-a, no preciso momento em que o seu joelho embateu sem trégua na esquina incisiva de um móvel.
Baixou-se lentamente. As suas mãos assentaram naquilo que parecia o tampo de uma mesa e ela deixou-as deslizar ao longo da superfície lisa e estéril, dobrando o tronco – num gesto de desistência ou de avidez? –, até que encontrou um objecto frio e redondo –
um copo?
- De certeza que isto não é tudo um equívoco? – e de repente sentiu uma madeixa do seu cabelo revoltear.
- Não sei como podes acreditar em tamanho despautério.
Sorriu. Mas não reconhecia aquele toque no seu cabelo, aquele aroma escorregadio. E as ruínas daquele toque e daquele aroma eram tudo o que tinha. Não se
reconhecia.
- Ainda por cima usas palavras difíceis. Sinto-me impressionada.
Esperou por outro toque fugaz, talvez a respiração no seu pescoço, mas
nada.
Nada que lhe dissesse para onde a seguir. Só aquela muralha indecifrável sob a sua pele e que as suas mãos sonâmbulas não podiam atravessar, só percorrer sem sair do mesmo sítio.[...]
Desejo
[...]Não devia ter-se deixado progressivamente ficar nas águas mornas do silêncio. Mas era tão tentador… Era tão… autêntico. Os colegas viram-no rasgar o oceano insondável passo a passo e não se coibiram de lhe fazer saber o quanto isso lhes desagradava, lembrando-lhe que não lhe fazia bem isolar-se daquela maneira, mas ele já mergulhava e os sons das suas vozes chegavam até ele distorcidas pela densidade da água. Sempre achara que seria perfeitamente capaz de sobreviver incólume a várias semanas na solitária, se alguma vez fosse preso, por isso… Que mais podia fazer? As palavras tinham-se tornado companheiras supérfluas para todas as coisas que tinha visto, [...] todos os estilhaços que desfiguraram todas as pessoas de quem nunca se despedira. As palavras tinham-se tornado mais arsenal de guerra porque nunca, nem que passasse o resto da vida a tentar, iria conseguir mostrar aos seus colegas aqueles lugares de angústia que trilhava dentro de si e o mantinham naquelas trevas. E alguém lhe dissera uma vez que não havia agressividade maior que a agressividade do silêncio, por isso que outra forma melhor de protestar em alto e bom som perante aquelas pessoas que não se importavam, que nem sequer pensavam, inacessíveis nas suas fortalezas de convicções? Talvez as obrigasse a reflectir… Talvez durante esse tempo encontrasse maneira de conter o tumulto estrangulador que se convulsionava no seu âmago, recusando nomes, recusando compreensão, recusando calmantes, agitando num remoinho tudo de que era feito, mudando tudo de sítio, deixando tudo irreconhecível. Tinha medo de abrir a boca para fazer uma tentativa humilde de se projectar no concreto e não se conseguir controlar, começar a abrir rachas, e nunca mais parar. Tinha medo da força da corrente, de ser arrastado e submerso para sempre. Tinha tanto medo de perder a cabeça… roçar a loucura… e descobrir que era irreversível. [...] Podia ser que com o tempo as pessoas entendessem, podia ser que com o tempo as águas baixassem, a terra absorvesse pouco a pouco a magnitude com que fora atingida e ele pudesse voltar a aprender tudo do início, a reconstruir-se a si próprio a partir daqueles pontinhos de derrocada. Mas por agora não. Por agora ainda era demasiado cedo, ainda havia de mais para absorver. Ainda não conseguia processar as más notícias recebidas, não conseguia deixar de visualizar aquelas imagens atrozes dos corpos irreconhecíveis daquilo que fora tão real, não conseguia processar a rapidez, a aleatoridade e o absurdo de tudo. Será que um dia também aquelas imagens lhe iriam parecer fotografias tiradas há cem anos numa outra vida? Quem lhe dera que pudesse esquecer aqueles últimos meses da sua vida, da mesma forma que já quase esquecera o rosto da mulher. Quem lhe dera que fosse assim tão fácil… Quem lhe dera esquecer as coisas más que lhe tinham acontecido ultimamente.[...]
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
sábado, 26 de Setembro de 2009
Pain is useless and debilitating [...] when it is telling us that there is something dreadfully wrong that we can do nothing about.
why zebras don't get ulcers
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
um dia beijo-te
um dia beijo-te ao som
do vermelho tinto que trazemos
no sangue mesmo que não sintas
fervilhar no teu os meus lábios
dir-te-ão mais que as palavras
e juras que carrego nas
veias.
um dia beijo-te quando tiver
coragem de dizer sem palavras
as palavras que sinto na minha
pele ansiosa pela tua
- os poros e pêlos e fendas
e poesia que os nossos dedos
calejados manchados de tinta
podem escrever.
um dia beijo-te
por não ter palavras.