sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Faz hoje um ano que mudei de casa.

Faz hoje um ano que me deparei com memórias há muito enterradas, faz hoje um ano que tive demasiadas dores nas costas, faz hoje um ano que o Pedro me ligou a caminho de Grândola a falar-me do hostel pela primeira vez (tinha eu os dedos tão frios entre aquelas paredes gélidas e hostis que mal consegui atender), um ano que comecei que a perceber que o namoro que eu tinha afinal não era namoro nenhum.
Num ano aconteceram mais coisas do que eu julgava ser sequer possível. Ainda estou no mesmo sítio mas já fui a mais sítios que, há um ano, jamais acreditaria que podiam acontecer. O pesadelo, com os seus intermitentes pontos de luz, paz e fé, ainda não terminou. Mas já está muito mais perto do fim.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

De repente, levantei-me de um ímpeto da cadeira em que estava, em frente ao pc, e virei costas a tudo a abanar a cabeça e a rir do fundo do diafragma, com uma sinceridade com que há muito não me ria.

É que só nesta semana - e ela ainda não chegou sequer ao fim - o universo já me provou, pelo menos de meia dúzia de vezes diferentes, quão ridículo consegue ser.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A partir daqui não há nada. Não há mais nada para a frente, mas também não há nada para trás. Quatro paredes brancas. As pegadas que andam às voltas e acabam por se sobrepor. Nada. Sente-se o vaivém, a corrente de ar, das pessoas que passam de um lado para o outro. Não se sabe por onde entram. Não se sabe por onde saem. Não se sabe por onde sobem. Não se sabe por onde descem. Nada. Quatro paredes brancas. A certeza que não consegue sair dali. A certeza que não é a única personagem. Mais nada.

Não sabe como foi ali parar. Que foi que me disseste que eu tive de esquecer? Sabe a muito custo que pertence àquele mundo, mas o esforço é tão sobre-humano. E compensa? Será que compensa? Que foi que me disseste que eu preferi nunca ter sabido? E a ignorância que mata em poucos segundos. Ou matava... Mas não há (mais) nada a partir daqui. Porque não espero voltar a lembrar-me... Porque não esperava... Porque não espero voltar... Um ano. Um ano para o comboio dar a volta e para quê? Não conhece outro sítio senão as mesmas quatro paredes brancas, que para o efeito até podiam ser duas, ou uma, um grande muro vazio à espera – sempre à espera – que o preencham de várias cores (cores sem nome porque a partir daqui não há nada), que lhe inventem uma vida.

[...]

Porque a partir daqui não há nada. Não há mais nada para a frente, mas também não há nada para trás. Quatro paredes brancas. Será que alguma vez vou ser capaz de viver com este nada? Este nada consciente, pior que o nada de um coma, pior que o nada do pânico, pior que o nada de um choque. Quatro paredes brancas. Como todo o nada só dá para ficar à espera, tudo bem e contigo?, à espera de nada, enquanto se vê as pegadas a acrescentar itinerários às pegadas, enquanto se sente o vaivém das pessoas de uma ponta à outra a fazer corrente, a fazer corrente de ar, a fazer corrente, não se sabe por onde entram, não se sabe por onde saem, não se sabe por onde sobem, não se sabe por onde descem, a passar mais perto, mais longe, a demorar-se mais, menos, enquanto se ainda não bloqueia aquela parte que se alimenta da possibilidade de, tenho medo de estar a enlouquecer. Não sei lidar com esta ausência. De maneira nenhuma., haver alguém no mesmo sítio, na mesma situação, depois do dilúvio.


(2004)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Amo-te, e isso não muda nada.

domingo, 7 de novembro de 2010

I dreamed surgery couldn't fix me

domingo, 1 de agosto de 2010

[...]
Parece que nos quer devorar… comentei.
Desligaste a lanterna bruscamente e fitaste-me em silêncio.
Então?
Aguentei o teu olhar antes de ceder e afastar-me do poço em passo lento e cabisbaixo.
Não faço a mínima ideia do que significam, respondi de muito longe.
Nada disto? e voltaste a abrir os braços como se toda aquela tarde insólita pudesse caber no abraço que lhe quisesses dar.
Estavas a ficar tão pequeno…
Sabes, ouvi-te da tua distância, às vezes, quando uma pessoa não quer muito ser encontrada…
Tenho tantas saudades dele… murmurei para mim esperando conter a mágoa sob a pele cicatrizada à força dos muitos quilómetros já caminhados. Quase ansiava pelo confronto, mas as forças vacilavam-me, os cortes insistiam em abrir. Levei o polegar à boca para estancar o sangue.
O quê? coxeaste tu atrás de mim, contemplando não sem alguma estranheza o meu gesto infantil. Sabes, às vezes temos de saber quando parar. E paraste, levemente ofegante. Era isso que dizia a mensagem, não era? Eram as coordenadas para irmos para casa… [...]

sábado, 17 de julho de 2010

Tanto podia ser um ano, dois ou uma década. Bebo. Devaneio. Perco-me. Horas tardias. Sorrisos fugazes. Refugio-me no meu tamanho. Finjo que nada aconteceu. Horas turvas. Bebo mais um pouco. (Sorrio.) Todos caímos enfim no esquecimento.