quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


Michael Zavros

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Há pessoas que confundem amor com dependência afectiva.

domingo, 1 de fevereiro de 2009


sábado, 31 de janeiro de 2009

os pontos soltos que fui criando
e dispondo por mim
como uma constelação à espera
de ser formada
pequenas luzes dispersas
que me lançaram na queda
por não terem rectas
que me guiassem
encontrei linhas
com laços e nós
desfazendo-se sempre
entre os dedos ansiosos
agora calmos - ainda nus
que apontam os pontos
que julgam estar
por toda a parte

e não te posso querer
só por me ver só

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O bicho que mais medo suscita dá pelo nome de Espera.

Aqui, hoje, sob uma luz branca de uma cidade imunda, pouso os pés com cuidado, não vá derrapar nos rastos humanos e animais que salpicam as pedras da calçada. Amarro as ideias com cordelinhos coloridos para conseguir uma ordem. Tento terminar nas cores quentes para ir aquecendo ao longo da caminhada. Porém, às vezes, cruza-se tudo a uma velocidade que escapa a radares, e os cordelinhos terminam em solenes nós. Nesses momentos tiros os olhos da calçada e termino estendida entre o lancil e o macadame. Com os pés para o ar e a cabeça em terra.

Sento-me num café comum. Peço uma boémia. Leio umas linhas de um livro. Peço nova boémia. Entorno os olhos sobre as linhas ligeiramente oblíquas. Varro a sala com os pensamentos. Nada de novo, nada de registável. Trivialidades sensaboronas. Levanto-me, empoleirando-me sobre as pernas inseguras e dirijo-me à caixa. Quando tiro a nota da carteira vejo-me reflectida no espelho. Quase não me distingo os contornos. Fixo os objectos que me ladeiam na imagem à minha frente. Todos mantêm a substância e dureza. Só eu me esbato entre as garrafas de martini e porto. Olho a menina que me devolve o troco. Não comenta nada, nem levanta os olhos. Estende apenas a mão para o vazio, para o ponto onde estou paralisada. Deixo-me arrastar pelas botas que levo nos pés e atiro-me para a rua. Encontro a minha direcção por entre a chuva miudinha. A mente já tropeçou várias vezes, mas os pés continuam agarrados à calçada escorregadia. Começo a sentir uma vontade de me largar aos pedaços. De massajar a loucura, de lamber os delírios. Os lábios arrebitam-se nos cantos. Tenho a aparência de uma pessoa feliz. Mas a transparência continua a intensificar-se. Paro em frente de uma montra, encosto de forma desajeitada a cara ao vidro. O odor que me devolve a superfície fria provoca-me uma náusea mal contida. Um cheiro enjoativo de flores frágeis. Passo o nariz pela superfície lisa do braço. Não há dúvida. O odor é meu. Percorro o acervo de informações inúteis guardadas no meu cérebro, tento identificar o cheiro a um nome. A lista é reduzida. Só nomes de flores comuns e sem associações sensoriais, imagens planas de livros escolares. Assim que me afasto da montra levo um empurrão do vento e rebolo com as folhas molhadas. Trinco a língua e espremo uma costela contra uma pedra bicuda. Solto alguns sons por formalidade e tradição e deixo-me ficar ali quieta. Estirada. Passa um transeunte por mim, pisa-me os cabelos de forma indecorosa e não se detém. Minutos passam e nada. Nem me movo nem penso. Uma colmeia de jovens desce a rua. Abrandam no local onde resvalei e caí. Não parecem ter pressa e vão atirando frases uns aos outros. No momento em que me resolvo a pedir uma mãozinha e sacudidela no vestido chega-me uma voz “Não vos cheira a crisântemos?”. Sinto-me elevar com a força dos seus narizes que peneiram o ar. Flutuo a uns palmos do chão. “Talvez”. Voltam-se em batalhão e prosseguem rua abaixo. Volto a poisar na calçada. Fixo as árvores desfocadas e penso, então era isso: Crisântemos.